Uma Leitura – MÚSICA E MUSICALIDADE EM FERNANDO PESSOA E ALBERTO CAEIRO.

Adaptado de um trabalho de faculdade.

Considerando-se que cada persona  de Fernando Pessoa – o ortônimo e os heterônimos -pode ser abordada como um sujeito diferente e, portanto, com subjetividades diferentes, não é de se estranhar que cada um deles encarasse de maneira diferente a mais subjetiva de todas as artes: a música.
Vejamos o poema Qualquer música, do ortônimo Pessoa:

Qualquer música, ah, qualquer
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música – guitarra,
Viola, harmônio, realejo…
Um canto que se desgarra…
Um sonho em que nada vejo…

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado,a confusão
Da última dança vivida…
Que eu não sinta o coração!



Comparemo-lo com o poema XI  do Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro:


Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem…

Para que é preciso ter piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.


Sabemos que Pessoa é extremamente interessado em coisas do nível do místico e do oculto; sua obra é recheada de poemas de cunho metafísico e religioso, expressando uma cosmovisão transcendentalizada. Pois bem, é com essa visão de mundo que o poeta aborda a música no primeiro poema.
Incerto e inquieto de alma, o autor busca na música uma experiência  apaziguadora, um locus amenus sonoro longe de seu coração onde a calma é impossível, um “sonho” audível para se sonhar consciente e acordado, um “canto” que o leve para qualquer outro canto que não dentro de si mesmo, que o desgarre de si. Enfim: “qualquer coisa que não vida” real ! A música para Pessoa é uma experiência espiritual, transcendental, que traz alento ao homem desesperado da vida moderna  sem sentido. Pode-se dizer que, para ele, a música tem uma função religiosa.
Nada mais diferente disso que Caeiro. Poeta dos  sentidos e das sensações, notadamente da visão, da experiência empírica, avesso à metafísica e à filosofia, a sua cosmovisão intranscedental jamais poderia lançar a mesma opinião para a música.
Não que ele não goste: é até agradável. Mas, sendo o piano um instrumento construído, e por tanto, pensado, projetado, idealizado, e a musicam uma arte abstrata, sem referências objetivas, pelo contrário,  uma expressão subjetiva que prescinde de qualquer ligação com o exterior senão as ondas sonoras, não poderia deixar de ficar em um patamar mais baixo. Para Caeiro, melhor é ouvir a Natureza, “correr dos rios” e o ” murmúrio que as árvores fazem…”.
Enquanto a música diz algo indizível, expressa outra coisa que não a si mesma, tem um sentido para muito além de sua materialidade sonora, materialidade, aliás, invisível, impalpável, enfim, de uma materialidade quase que não concreta, quase que abstrata, os sons da Natureza são diretos, ligados a ela, não querem dizer algo sobre ela, antes, são parte dela. Ouvir um rio correr é estar ao pé de um vendo-o correr; o murmúrio das árvores diz que há árvores e que o vento sopra em suas folhas. Não há reflexão, meditação sobre o som, só a experiência de ouvir.
São maneiras diferentes de encarar a música que acarretam maneiras diferentes de ouvir. Pessoa ouve a música em seu interior, com a alma, que anseia por calma, e com o coração, que quer ser anestesiado. Pelo som, busca a experiência interior que o desliga do mundo visível, real: “um sonho em que nada vejo…”.  O poeta quer ouvi-la até o ponto em que não haja nem mais mundo nem mais ele, só a música.
A resposta de  Caeiro a isso é  direta: “melhor é ter ouvidos”. O heterônimo tem o ouvir como forma de apreensão do real: ouvir o barulho do rio é uma forma de saber que o rio corre, e se estamos ao pé do rio e vemos que o rio corre, e se pomos a mão na água e sentimos que o rio corre, desta maneira sabemos inequivocamente, segundo Caeiro, que o rio corre. O mesmo não se dá com a música: ao escutar o som como onda sonora que vibra nos ouvidos, sem ressonâncias  mais internas,a música não faz tanto sentido, se é que nenhum sentido, uma vez que destituída de Natureza, é destituída de Realidade. É só um sonzinho “agradável”.
Mas, mais do que duas cosmovisões diferentes, apresentam-se dois estados de alma diferentes.
Vejamos Qualquer Música. A posição do autor quanto à música não é exposta como proposição a ser estudada: o poema não quer oferecer nada, mas pedir.  É o pedido desesperado de um homem inquieto, atormentado em e por si mesmo, que pede de maneira desesperada por alento: ” Qualquer música, ah…”. Ele sequer sabe qual música quer, o seu desespero por ouvir algo que o acalme é como a fome de um faminto que não escolhe o que quer comer, só quer comer. O eu poético do poema é um sujeito angustiado.
Já o eu poético expresso em XI é bem resolvido, não expressa agitação interna nenhuma -ou melhor, não expressa interioridade nenhuma. O que há é um homem seguro de sua posição ante o assunto, disposto a oferece-la como filosofia, quase que num aforismo: “Para que é preciso ter piano? O melhor é ter ouvidos e amar a Natureza”. Enquanto Pessoa pede, Caeiro dá. Um tem um problema; o outro, uma  solução.
Tais diferenças não poderiam deixar de se refletir nas formas dos poemas. O do ortônimo é constituído de doze versos redondilhos maiores dispostos em três quadras, com rimas alternadas e uma insistência  em sons velares (qu, c, g). Essa forma dá ao poema uma musicalidade pedida pelo autor, como se fazer e ler o poema fosse cantar e escutar uma música e, logo, amenizar-se. Já XI é disposto em seis versos livres separados em duas estrofes de três antes por seu conteúdo do que pela musicalidade. Seu tom é prosaico, tendo uma aparência mais de aforismo filosófico, ou de ditado popular, que de poema.

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