Manias, de Cesário Verde - Uma Leitura

Manias
  
O  mundo é velha cena ensangüentada.
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.
 
Eu sei um bom rapaz, — hoje uma ossada —,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.
 
Aos domingos a déia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,
 
Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!
 Cesário Verde
                                                                   
 
 A teoria clássica dos gêneros dá como principal característica da lírica, ou gênero lírico, a expressão de um eu-lírico, com foco na sua subjetividade. Essa centralidade no sujeito sempre significou – e no Romantismo se acentuou ainda mais – a expressão sentimental do sujeito, a expressão de suas emoções, seus sentimentos.
A estética Realista veio em contraponto a essa estética Romântica:  ela demandava postura crítica e objetiva diante da realidade; pretendia-se como operador de transformações dela; tomava a literatura como análise e estudo do homem e da sociedade, numa tentativa de “melhorá-la”.  
Imbuído dessa estética, a de sua época, Cesário Verde vai exercitar-se na lírica, mas não nos moldes clássico-românticos: o eu-lírico de sua poética não será um apaixonado impregnado de sentimentalismo e destituído de capacidade crítica; antes, será a consciência crítica que reflete – tanto no sentido de pensar sobre quanto no de sua obra falar sobre – a sociedade em torno de si, o eu-lírico. O sujeito não se volta para si, mas para o seu entorno. O mundo expresso não é mais o interno, idealizado, mas o externo, real. Enfim, o eu-lírico não é mais o ponto centrípeto do poema, mas seu ponto de partida dum olhar crítico que incide sobre  o mundo, o real, o Mundo Real.
Assim, se o eu-lírico  era tomado do sentimento que poetizava ou impregnado da amada retratada nas estéticas clássica e romântica, se está próximo do que fala, a postura do eu-lírico realista, e mais especificamente o de Cesário, vai tomar outra postura: a do distanciamento. Esse posicionamento vai lhe permitir não somente a busca da melhor perspectiva, o melhor ponto de vista sobre o retratado, como também a isenção necessária para quem pretende tomar postura crítica e a  credibilidade necessária para quem quer enunciar tal discurso.
         Cientes do escrito acima, podemos lançar olhos sobre o poema Manias. Creio poder encontrar nele os procedimentos estéticos descritos acima, exercitados de maneira brilhante.
         Trata-se de um soneto, de versos decassílabos heróicos ( sem pés quebrados) dispostos em dois quartetos em rimas interpoladas abba e dois tercetos em rima alternada, em estrutura, respectivamente, cdc edcd. Formalmente, um soneto clássico. Quanto às rimas, nada de mais.
         Quanto ao conteúdo, vejamos o primeiro quarteto, divido em duas partes de dois versos cada. O primeiro, formado pelos dois primeiros versos, não a toa principia por “O mundo”, objeto de análise do poema; o segundo, por “A vida”, retomando metonimicamente o mundo em que se desenrola e incidindo, ao mesmo tempo, sobre a vida concreta e individual de cada um. Estes são tratados e analisados por metáforas teatrais: “O mundo” é a cenografia, o palco em que se desenrola o espetáculo da “vida”. Esse espetáculo, porém, é tragicômico, pois a cena é “ensanguentada” – palco dos derramamentos de sangue das tragédias da vida; “coberta de remendos” – que fala da tentativas de “remendar” tanto esse mundo intrinsecamente trágico quanto  os danos causados pelas tragédias, o que em si é “picaresco” e torna o mundo, ensangüentado e remendado, uma visão picaresca; esse mundo é palco ou de “chula farsa assobiada” ou de “selvagem tragédia picaresca”.
         Temos então uma opinião critica e incisiva sobre o mundo e a vida, apontando e focalizando um ponto determinado delas: o caráter tragicômico destes.
         O resto do poema vai descrever uma “cena” tragicômica, um episódio da “peça da vida” de um rapaz, parte do “teatro do mundo”, para demonstrar o caráter tragicômico do todo.
         No segundo quarteto aparece o eu-lírico, logo no 5º verso do poema, mas que não “sente” ou “quer”: ele“sabe”, conhece, apela à ordem não de sensível, mas do cognoscível. Ele vai apresentar os personagens da cena: o “bom moço – hoje uma ossada” e sua amada, “certa dama pedantesca,/perversíssima, esquálida e chagada/ mas cheia de jactância quixotesca”. Atentando para o 9º verso que diz que a “déia” é “já rugosa”, temos bem descrito o casal protagonista : o bom moço cego de paixão  e a velha magrela, perebenta e perversa – que ao meu ver, também pode trazer algo de pervertida – cheia de uma arrogância sem fundamento. Enfim, um casal romântico, que, a essa altura, é metonímia do mundo romântico lisboeta criticado.
Nos tercetos seguintes desenrola-se a “cena” propriamente dita: aos domingos o moço leva a “ dama” à missa; ela lhe oferece o braço –esquálido, chagado, rugoso – de maneira preguiçosa, pedantesca , esnobe; ele, com as mãos tremendo de nervoso por estar com a amada, leva-lhe “ o livro com que amante ia ouvir missa” ( provavelmente uma Bíblia) feito o seu cãozinho. Um quadro de chorar – de rir.
 O fato de a cena se repetir – “ aos domingos” –  justifica o título, Manias, sendo as tais a causa de aflição no moço, vítima da perversidade da “amada” – teria ele morrido “de paixão”, coisa comum no Romantismo? Teria ele sido esnobado até a morte? – e causa de gozo dela – o que autoriza uma leitura da “dama” como uma “pervertida”.
Temos, então, o exercício lírico-realista bem sucedido: a crítica da perversão moral e da cosmovisão romântica, nocivas à sociedade, capazes de levar um “bom rapaz” a se tornar “uma ossada”, o velho a destruir as novas gerações.
Seria apenas cômico, fosse a imagem ridícula romântica apenas; seria trágico apenas fosse só o retrato da sociedade; mas, disposto assim, imagem romântica e crítica da realidade tão bem entretecidas pelo poeta, tão bem apresentadas pelo eu-lírico, eis a grande tragicomédia da vida apresentada.         
P.S.: adaptado de um trabalho de faculdade.