5 notas a um conto de Machado de Assis

Machado é invariavelmente “acusado” de colocar o enredo de suas histórias, longas ou curtas, em segundo plano, servindo esta de “pano de fundo” para a “análise de caracteres” típica de seus escritos.
O autor deste texto faz algo parecido: deixando um pouco de lado a análise do enredo do conto Eterno!(publicado no livro Páginas Recolhidase que é o conto machadiano aqui em questão), este texto divide com seu leitor algumas notas pontuais e aparentemente esparsas sobre o texto.
I
Um poema elegíaco (Álvares D’Azevedo, publicado em 1858 n’A Marmota) e um texto crítico ( Álvares de Azevedo: Lira dos Vinte Anos, publicado em 1866 no Diário do Rio de Janeiro) deixam claro a admiração de Machado pelo poeta romântico precocemente morto. Não seria de se espantar ver referências a Azevedo nos textos de Machado.
Norberto é romântico, sentimentalista; Simeão, por sua vez, é hedonista, dado às moças e aos bons charutos e inimigo dos estudos. Um é idealista, platônico; o outro, é cético, materialista.
Parece, então, que Machado fundou a personalidade das personagens principais do conto nos dois termos da “binomia” em que Álvares de Azevedo funda a unidade de seu livro, segundo revela no prefácio à segunda parte da Lira dos Vinte Anos: platonismo e ceticismo. Sendo o poeta autor da Lira de predileção entre os jovens estudantes da época e ele mesmo tendo escrito os seus textos, os platônicos e os céticos, muito jovem, parece que Machado foi buscar no livro de Azevedo um repositório de tipos e caracteres da juventude de sua época.
II
Ingenuidade romântica de um lado, ceticismo hedonista de outro, o que temos em Norberto e Simeão são dois meninos, dois  “moleques”, dois jovens descabeçados – ou cabeçudos, como preferir. Ora, quem melhor para por freio às “criançadas” destes meninos senão a “velha”, “experiente”, “sábia” figura paterna ? Ela figura discreta, mas decisivamente na nossa história.
Primeiro, o tio de Simeão, chamando o sobrinho-agregado de volta à Bahia, pondo fim à farra do tutelado no Rio; depois, o pai de Norberto, frustrando os planos do filho de acompanhar o amigo – e a amada – em suas viagens de volta; sem os dois a tomar decisões “arrazoadas”, sem colocar o ponto final à farra de um (deliberadamente) e à loucura do outro (ainda que sem saber), teríamos outro conto. Simeão não voltaria à Bahia; Norberto não ficaria no Rio. Talvez nem tivéssemos um conto “machadiano”…
III
Machado é mestre em contar histórias que não podem ser contadas quando elas já podem ser contadas, após a morte dos envolvidos ou próximos desta, quando elas já não têm mais cara de futrico, de fofoca, e tomam feição de contos exemplares da condição humana.
Argumento neste sentido nos dá o narrador deste conto para nos contar este conto.
“ (..) Assim é que, se um homem de Estado escrever e publicar as suas memórias, tão sem escrúpulo, que lhes não falte nada, nem confidências pessoais, nem segredos do governo, nem até amores, amores particularíssimos e inconfessáveis, verá que escândalo levanta o livro.(…)
… Mas deixai pingar os anos na cuba de um século. Cheio o século, passa a documento histórico, psicológico, anedótico. (…)”
(ASSIS, s.d.; 26)
Pois é: o que o narrador nos apresenta e nós lemos não é simples relato de um episódio particular de um indivíduo qualquer, uma confissão de podres passados, uma fofoca postergada.
Não: é um “estudo de caso”, é um documento, é uma análise da alma humana que só quem tem a frieza daquelas que ficam à janela espiando e escrutinando a vida dos outros consegue fazer.
Que a “cuba dos séculos” ainda estivesse quase três quartos vazia, é mero detalhe…
IV
Simeão fazia chacota com a ingenuidade romântica de Norberto, mas ele mesmo se revela ingênuo em sua esperteza. Já na Bahia, quando começa  a por em prática seu plano de sondar Iaiá Lindinha em favor do amigo, que aguarda relatórios no Rio, o nosso esperto jovem passa a freqüentar a casa da Baronesa, a ter conversas com ela, a familiarizar-se com ela – sem desconfiar que podia ele mesmo se apaixonar por ela, muito menos que esse sentimento pudesse ser correspondido por ela…
Se, de um lado, Norberto superestimava a figura feminina da esposa do Barão, por outro, Simeão subestimava a figura feminina de Iaiá Lindinha  – que não tinha esse apelido à toa… Dois meninos inexperientes diante do enigma indecifrável chamado Mulher.
É como Leoni canta em Garotos: “ Garotos como eu/ Sempre tão espertos/ Perto de uma mulher/ São só garotos.”
V
Ao firmarem o pacto, antes de Simeão viajar, Norberto, ao pedir as cartas ao amigo, afirma que “o desengano matá-lo ia, porque esse amor [o seu por Iaiá], eterno como era, iria fartar-se na morte e na eternidade.”(ASSIS, s.d.; 25)
Anos mais tarde, quando o marido de Iaiá vai, receoso, à casa do amigo, em passagem pelo Rio, este descreve seu sentimento pela esposa, Carmela, que já lhe tinha dado dois filhos, assim?
“-Viste-a bem? (…) Não te digo o sentimento que nos prende, estas coisas sentem-se, não se exprimem. De que sorris? Achas-me naturalmente criança. Creio que sim, criança eterna, como é eterno é o meu amor.”
(ASSIS, s.d.; 29)
Há alguma diferença essencial entre esses dois amores “eternos”?  Entre aquele do menino estudante, aquele que o fazia não dormir, pensar em atirar-se no mar, que iria se fartar “na morte e na eternidade”, que lhe impelia a fazer “criançadas”, e o outro, do pai de família carinhoso, que fazia com que ele tivesse “adoração” pela esposa, que o tornava “criança eterna”?
A meu ver um só: o seu objeto. O sentimento de Norberto por Carmela é, mutatis mutandis, o mesmo amor romântico que ele tinha por Iaiá. Se não era um amor desesperado era pela circunstância de ele estar saciado, junto de sua amada. De resto, é o mesmo sentimento infantil.
O amor romântico diz muito mais sobre o amante do que sobre o amado…
Bibliografia:
ASSIS, Machado de. Páginas Recolhidas. Belém: NEAD: Núcleo de Educação Distância, s.d. Disponível emwww.nead.unama.br
ASSIS, Machado de. Poesias Dispersas. Disponível em http://machado.mec.gov.br/
ASSIS, Machado de. Álvares de Azevedo: Lira dos Vinte Anos. Disponível em http://machado.mec.gov.br/
AZEVEDO, Álvares de. Macário. Belém: NEAD: Núcleo de Educação Distância, s.d. Disponível emwww.nead.unama.br