Capítulo I, IX - Meditações, de Gonçalves Dias


” Vós introduzistes um cisma entre o povo – iludindo-o com palavras dobradas – entusiamando-o com lábios dolosos.
“Deste-lhe esperanças de uma néscia utopia, asseguraste-lhes direitos impossíveis de se realizarem.
“Nas trevas e em silêncio preparastes um veneno sutilíssimo com uma máscara de vidro no rosto.
“Nas trevas e me silêncio agucastes o punhal da discórdia, e dissestes: – “nós o embotaremos, quando nos aprouver.”
“E quando nos for mister rejeitar a sua força, nós lhe poremos um dique como à fúria do oceano, e ele se conterá nos seus limites. -”
 ”Mas porventura pode contar com a vida aquele que prepara venenos em tamanho segredo, como o que fabrica moeda falsa?
“Não será tão forte o veneno que despedace a máscara de vidro do seu rosto, ou será ela tão hermeticamente fechada que o alquimista não deve ter receio de aspirar sequer um átomo desse licor pernicioso?
“E o alfagem ou cutileiro que burne uma espada, ou adereça um punhal, pode acaso dizer de convicão: “esta espada não se empregará no meu corpo, nem este punhal se há de tingir do meu sangue?”
“Pois em verdade vos digo que será o primeiro escarnecido – ludibriado – e martirizado aquele que se julgar dominador por todo o tempo de sua vida.
“Porque o Senhor disse: – ” E se alguém de vós quiser dominar sobre os seus irmãos, tornar-se-á o último dentre eles”.
“E assim será por todo o sempre, porque a palavra do Senhor é eterna.”
Meditação, de Gonçalves Dias.

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