A metafísica de Cold Case.

A metafísica de Cold Case.
E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim.
Gênesis 4:10
A quem é fã de Cold Case (Arquivo Morto, aqui), a epígrafe bíblica acima pode parecer mais do que óbvia; a quem só a assiste casualmente, pode parecer não fazer sentido algum. O caso deste que vos escreve, entretanto, não é nem um, nem outro: gosto bastante da série, mas só assisto quando posso ( embora sempreque posso) e pelo SBT, pois não tenho TV a Cabo. Deixai-me escrever, pois…
Resumindo mais porcamente do que no site do SBT, a estrutura catártica que guia (a maioria d)os episódios da série é a seguinte: Lilly Rush trabalha na divisão de homicídios da polícia da Filadélfia; ela reabre um caso antigo não resolvido, normalmente motivada por uma pista que aparece, se valendo da tecnologia atual para desvendar o passado; testemunhas e suspeitos vão soltando pílulas de verdade em seus depoimentos, geralmente após serem apertados por Lilly ou alguém de sua equipe, até que se chega ao culpado, que sob pressão, confessa; ao som de uma música da época do crime, vemos o culpado sendo preso, o alívio de familiares e amigos da vítima, a sensação de dever cumprido de Lilly & Cia. e a vítima, a própria, aparecendo (e tanto faz se como fantasma, imagem da consciência ou qualquer outra coisa), como que para agradecer pela solução do caso, e desaparecendo, já que, agora ela já pode descansar em paz.
E aqui chegamos ao ponto do nosso texto: o senso de justiça como resposta ao clamor do sangue do morto.
A maioria dos crimes a serem desvendados se passou dez, vinte, trinta, anos atrás ou mais – o mais antigo que eu lembro se passou nos anos 40. Do encaixotamento do caso inconcluso até a sua reabertura, ninguém toca no assunto, ninguém sabe, ninguém viu: envolvidos e testemunhas seguem com suas vidas “normalmente”. Aí, surge uma pista e – boom – descobrimos que o passado, o “fantasma” da vítima, ainda assombra a vida dos envolvidos e testemunhas e as aparentes vidas normais escondem angustiadamente um passado que  eles tentam manter enterrado, encaixotado, mas que uma espécie de “clamor silencioso” por justiça não deixa.
Por quê essas pessoas não conseguem viver suas vidas presentes livres de seus passados? Por quê reabrir um caso há décadas arquivado se isso não vai ressuscitar a vítima? Por quê uma policial se preocuparia com esses casos antigos se surge casos novos todos os dias? Por quê o sangue do inocente clama por justiça. O senso de justiça de Lilly não é guiado por um desejo de reparação, um acerto de contas com o passado, a simples busca pelo culpado nem por um jogo lógico-racional por descobrir a verdade, como o House – há algo de transcendental em sua dedicação pela resolução do caso. A própria pista que surge décadas depois, trazendo tudo à tona novamente, assume um caráter metafísico, como uma espécie de sinal, para muito além de uma peça em um quebra-cabeça lógico. Tanto em CSI quanto em Cold Case assistimos a flashbacks do crime; entretanto, eles se dão em circunstâncias muito diferentes em cada uma das séries: enquanto em CSI os flashbacks acompanham as deduções lógicas dos peritos, em Cold Case elas acompanham relatos e confissões, não apenas do crime propriamente dito, mas de todo o contexto: encontros, discussões, momentos íntimos, coisas que uma perícia não encontra… Em CSI, eles são prova material; em Cold Case, revelações do subterrâneo da alma. Muito, muito diferente.
A tecnologia tem papel importante em Cold Case mas, diferentemente de CSI, ela é apenas instrumental e, portanto, coadjuvante: o importante é responder ao “clamor silencioso” por justiça do morto, para que ele – e todos os assombrados por ele – possam descansar em paz. Não se trata simplesmente de resolver um caso, mas de pôr um ponto final em uma história, dar sentido a ela, eu diria.
A canção da cena final também tem papel importante, fazendo a ponte entre passado e futuro, trazendo as lembranças, que toda boa canção traz, em um contexto “catártico”- porque a solução do caso “lava a alma” dos personagens e dos telespectadores também – inserindo o próprio episódio na galeria no escopo das lembranças que canção evoca.
Eu sei que este é um recurso comum em séries americanas, mas, no caso, ele é potencializado ao máximo na série, dando a canção um aspecto quase mágico às últimas cenas e estas, por sua vez, revelando a faceta “espiritual” da canção.
Sim, Turn!Turn!Turn ( The Byrds), Have You Ever Ever Seen the Rain? (Creedence) e Don’t Look Back With Anger(Oasis) vão ser sempre as músicas que tocaram no final do Cold Case. Pode perguntar pra quem assiste.

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