Poética do Encafifamento.

Certas coisas me deixam encafifado.


Prêmios literários bancados pelo Estado são como roubos o bolso do contribuinte para dar a meias dúzia de privilegiados. Isso não é pensamento liberal, eu nem sou liberal hard-core, é senso comum. E é correto.


Bom, quando consegui o 2º lugar no II Festival de Música e Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, em 2006, na categoria poesia organizado pelos alunos desta, fiquei feliz, pois meus poemas seriam publicados em uma antologia. Conhecia a antologia do I Festival, pela DIX Editora, gostava do resultado, tanto editorial quanto literário, me espanta até hoje como algo daquele nível pode ter saído do nosso meio, alunos de Letras da FLCH-USP. Não havia (ainda não há) produção literária dentro da Letras, e isso é (deveria ser) estranho.  Com excessão da Revista Áporo, que não passou do terceiro número.  
Quando o livro saiu, quase 2 anos depois, entretanto, eu fiquei fulo, mesmo. Não era uma ação dos alunos: a antologia saiu com apoio (dinheiro) da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura e pela Humanitas, editora dos professores da FFLCH. 


Jamais bancaria uma obra minha com dinheiro público. Ter ocorrido contra a minha vontade me acalmou um pouco, mas só um pouco. Cheguei a participar do Nascente, concurso artístico organizado pela própria USP, mas só porque a premiação não era em dinheiro e, quando fui desclassificado na primeira fase, fiquei aliviado, mesmo. Esses fatos me incomodam até hoje, mesmo. Penso no dia em que um desconhecido qualquer vai jogar a obscura antologia na minha cara e gritar: mas você não é liberal, seu hipócrita???


Bom, o tempo passa eis é lançado O Livro de Scardanelli, de Érico Nogueira.um livraço, recomendo, nenhum senão, senão uma informação na contracapa: a de que o livro tinha vencido o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura de 2008, categoria poesia. R$ 25.000,00 para o vencedor desta categoria, R$ 212.000,00 em prêmios no total. Fiquei encafifado, mesmo. Porque, quem lê seu blog sabe, Érico é liberal, com vários textos contra a estatização da cultura.


Bom, o tempo passou, e surge O Cânone Acidental, de Mário Catalão. Não li, apenas alguns poemas publicados na blog de Érico e no site da Dicta&Contradicta, revista notadamente liberal-conservadora. Érico e Dicta incensaram muito o livro de Catalão, os poemas que li dele são bons, tinha em mentes comprá-lo logo.


Eis surge o post do blog do Érico: Catalão ganha o Prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia, parceria Funarte/ Instituto Camões. E Érico comemora isso. E, quando clicamos no link, ficamos sabendo que Catalão já havia sido contemplado com a Bolsa Funarte de Criação Literária. E aí eu já não entendo mais nada. Encafifação total. Mesmo.


Meus versinhos são lixo perto dos escritos de Érico e Catalão, isso é óbvio, eu sei. Também sei que não ganharia nenhum dos prêmios que os dois ganharam. No caso de Érico, nem foi muita grana. Mas não posso deixar de me encafifar com a incoerência.  Mesmo. 


Há uma contradição flagrante em cena, e isto não incomoda nem um pouco Érico - e isso, mais que as próprias premiações, que me incomoda.


Certas coisas me deixam encafifado. Isso é uma delas.

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