Revolucionários de Condomínio.

Publicado originalmente no Jornal Arcadas.

Revolucionários de Condomínio.

A passagem pelo nosso país, em fevereiro, da blogueira cubana Yoani Sánchez, que se opõe ao regime castrista e sofre censura e represálias do governo cubano por isto, exaltou os ânimos de um grupo formado por um tipo bem peculiar: os revolucionários de condomínio.


Revolucionário de condomínio pode ser definido como o cara que acredita que é “o” revolucionário porque posta memes anticapitalistas no Facebook, que usa camisetas do Che compradas em shopping centers, que apara sua barbinha à la Marx no cabeleireiro com maquininha, que ouve Caetano e Chico no IPod porque acha que isso é que é músico “do povo”, “de raiz”, que fuma maconha como “ato de rebeldia”. Ele acha que os estudantes são oprimidos porque não podem usar drogas à vontade nos campi e que o capitalismo é injusto porque ele não pode ter todos os jogos de Playstation que quer. Diz que defende a democracia e a liberdade de expressão mas é a favor do controle da imprensa (que não seja vermelha) e da censura (aos outros, é claro). Ele quer igualdade para todos e morte aos burgueses, sem perceber que ele é um burguesinho metido à besta. O seu universo é formado por contradições que ele nem percebe.


Pois foi esse tipo sui generis de “cidadão” que foi tumultuar a passagem de Yoani Sánches aqui no Brasil. E, é claro, eles nem perceberam o papel ridículo a que se prestaram. Sim, pois mais uma vez eles se puseram naquela situação contraditória que os caracteriza: utilizaram de sua liberdade de associação e de expressão para hostilizar uma pessoa que luta exatamente por isso, liberdade de associação e de expressão, em Cuba, onde essas coisas não existem. Papelão.


Emblemático disso foi o comentário de Yoani a respeito de sua “calorosa” recepção: “ Isso é algo que não vejo em meu país. Gostaria que houvesse essa liberdade no meu país.” Sim, pois se esses mesmos que fizeram a confusão se juntassem para protestar em Cuba contra o governo castrista, todos seriam presos.


O mais engraçado é que muitos destes que se opuseram à turnê da cubana apoiaram, defenderam com todo o entusiasmo a vinda do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, “democrata” de um regime que mata oposicionistas, adúlteros, blasfemos e homossexuais. Um show de tolerância.


A vinda da blogueira cubana incomoda porque deixa a contradição desses “playboys oprimidos” clara, evidente, e mostra o ridículo dela.

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