NO TABULEIRO – MUDANÇA DA META DO ORÇAMENTO, no Xadrez Verbal.

Participei de um debate no blog Xadrez Verbal, sobre a Mudança da Meta Fiscal (contra, claro).
Aqui: http://xadrezverbal.com/2014/12/15/no-tabuleiro-mudanca-da-meta-do-orcamento/

O jurisdicionado entre os juízes e os deuses.



O jurisdicionado entre os juízes e os deuses.



Apareceu na minha timeline notícia de um juiz federal que obrigou um Testemunha de Jeová a fazer uma transfusão de sangue, mesmo sendo isso contrário ao seus princípios religiosos. Não sou Testemunha de Jeová, discordo bastante deles, na verdade; tampouco sou contra transfusões de sangue, sou um doador até que frequente. Mas não consegui deixar de ficar perplexo com o que considero uma tremenda violência autoritária e totalitária.

Violência, física e psíquica. Violência física, porque introduz no corpo do paciente substância (sangue alheio) que ele não consentiu em receber; violência psíquica, porque fere os princípios mais básicos e valiosos do paciente, trazendo-lhe uma ferida psicológica, um dano moral de medição difícil.

Autoritária, pois, sob o pretexto de proteger a vida do paciente - e livrar o Estado de futuros infortúnios jurídicos, se impôs sobre o paciente uma decisão contrária à sua manifesta vontade, submetendo a autonomia do indivíduo de decidir sobre seu próprio corpo e sua vida ao arbítrio estatal (à Razão de Estado?).

Totalitária, porque se imiscui o Estado nas esferas mais íntimas da vida humana, quais sejam, a consciência moral e religiosa e a autonomia sobre o próprio corpo e a própria vida.

Tal violência manifesta a cegueira, escondida sob o manto da laicidade do Estado, de uma cosmovisão naturalista-materialista, que, com o pretexto de afastar a religião das decisões na esfera pública, esmaga a esfera das decisões individuais dos indivíduos, reduzindo a liberdade religiosa a uma mera permissão de crença, restrita ao espaço privado, sem expressão externa possível.

Tal cegueira faz com que não se veja, nos fatos mais triviais da vida cotidiana, o significado sagrado que aquele ato tem para o crente. Não percebendo esse sentido mais transcendente da ação humana, óbvio e fundamental para a pessoa religiosa, esse é esmagado pela decisão imposta.

Assim, não conseguiu ver o juiz (e o médico) que, o que para ele era mero procedimento cirúrgico-terapêutico, para o Testemunha de Jeová era um pecado grave, uma abominação, com consequências morais, religiosas e sociais (como será recebido o paciente entre os seus irmãos de fé?); ao escolher a vida em prejuízo da liberdade, não se viu o que era a “boa vida” (nem a “boa morte”) para aquele sobre quem a decisão incidia; decidiu o juiz salvar uma vida, sem perceber que tipos de condenações (temporais e eternas) poderiam derivar de sua decisão.

Não há que se falar em deixar de lado as “superstições” nessas horas e passar por cima das convicções religiosas para se atentar aos “fatos reais” e submeter-se ao “conhecimento científico”. Não goza o membro do Poder Público (não só do Judiciário, aliás) de posição epistemológica privilegiada para simplesmente afastar valores e crenças daqueles que sofrerão as consequências de suas ações. A investidura do cargo não dá a ninguém saberes amplos sobre “esse mundo” e o “outro”, nem poderes “acima do bem e do mal”. Porque a condição humana é de ignorância quanto ao transcendente, restando-lhe apenas a crença, e porque, como relembrado exaustivamente nos últimos dias, juízes não são deuses, cabe a estes (não os deuses, os juízes...) respeitarem a crença dos jurisdicionados que suportam suas decisões.

Há dez anos, o filósofo alemão Jürgen Habermas e o teólogo também alemão Joseph Ratzinger, que viria a ser, mais tarde, o Papa Bento XVI, se encontravam na Academia Católica de Baviera, em Munique, na Alemanha, para um debate sobre essa relação complicada entre religião e razão no Estado Democrático de Direito (o debate virou um livro: “Dialética da Secularização: sobre Razão e Religião”). A despeito da importância do debate no cenário atual e do gabarito dos debatedores, a discussão é quase que totalmente negligenciada em terras brasileiras; pior, dá-se o assunto por encerrado, ostentando-se, no complexo séc. XXI, pós 11 de Setembro, as soluções (que falharam) de um superado pseudo-iluminismo (veja-se a sintomática decisão do STF no caso das células-tronco embrionárias, de 2008 [ADI 3510, especialmente o voto do Ministro Celso de Mello]). Embora de se lamentar, não é de se estranhar ver essa lógica nas decisões dos juízes.

“Há mais coisas no céu e terra (...) do que foram sonhadas na sua filosofia”, nos lembra Hamlet; em uma época, entretanto, em que as ideologias, sempre simplificadoras e esquematizadas, como nos adverte Ricoeur, ocupam o lugar de qualquer esforço filosófico (e a formação descamba, cada vez mais, para a mera aprendizagem técnica, quando não para a doutrinação, daí pensar que o assunto seja relevante para os colegas do “Páteo”), não há sequer o esforço de se pensar o que há fora delas. Reduzido o Outro a seu papel no esquema, é impossível entende-lo de verdade, em toda a sua complexidade. Cegueira.



7 Características do Ministério de Música - Ron Man


7 Características do Ministério de Música

Ron Man





(nota: Tradução de um texto do The Gospel Coalition [link no fim do texto] que fiz para estudo de grupo de louvor.)



“E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito;
Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração;
Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” Efésios 5:18-20

Diferentemente do Velho Testamento, há poucas coisas (mas preciosas) no Novo Testamento sobre o ministério musical para o louvor corporativo; mas Efésios 5:18-20 (com Colossenses 3:16) nos dá um fundamento útil. Nesta passagem nós vemos ao menos 7 aspectos que deveriam caracterizar nosso ministério de música.



1. Um ministério cheio do Espírito

“E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito, . . “

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne.” Filipenses 3:3

Pra além dos debates sobre o que seja se encher do Espírito intrigante aqui é que o primeiro resultado mencionado por Paulo de se encher do Espírito seja cantar!

2. Um ministério recíproco

” . . . falando entre vós. . . “

Há um importante aspecto horizontal do nosso ministério musical para o louvor corporativo é algo que fazemos juntos. Louvor privado e pessoal é uma parte importante do nosso andar com Deus; mas no ajuntamento da igreja precisamos estar focados no “uns aos outros” tanto quanto em Deus. Isso nos sugere um importante corretivo pra muitos de nossos conflitos no louvor: louvor congregacional prove benefício mútuo, ao invés de benefício individual, primeiramente; assim, a atitude onipresente de “o que é pra mim nessa música?” ou “o que eu ganho com ela?” com a qual muitos abordam o louvor corporativo mostra uma grave falta de entendimento sobre o porquê de nos reunirmos. Nós ministramos uns aos outros e encorajamos uns aos outros e fortalecemos uns aos outros enquanto cantamos.



3. Um ministério diversificado

” . . . em salmos, e hinos, e cânticos espirituais. . .”

O significado exato dessas três categorias de canções em sido muito discutido pelos últimos dois mil anos, sem uma conclusão inequívoca. Entretanto, é certo que Paulo está dizendo que devemos usar diferentes tipos de música em nosso louvor corporativo. Vamos aproveitar das riquezas musicais além das fronteiras estilísticas, geracionais e nacionais.



4. Um ministério focado em Deus

” . . . cantando e salmodiando ao Senhor. . .”

Com certeza, nossa canção é direcionada para Aquele que é o único digno de nosso louvor. Não cantamos para nosso próprio prazer ou benefício (ainda que isso seja um positive efeito colateral), mas em Sua oferta e para Seu prazer e glória.



5. Um ministério interno

” . . . no vosso coração. . .”

“Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” 1 Samuel 16:7

Temos de fazer melodia com o coração antes que ela chegue aos nossos lábios. Pois louvor, para ser para glória e prazer de Deus, deve ser a expressão de um coração devotado. Tanto o antigo quanto o Novo Testamento deixam claro que Deus está mais preocupado com a atitude interna do louvor do que com a forma externa. Por isso nossa canção deve vir de dentro.



6. Um ministério responsivo

” . . Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai. . .”

“Louvai-o pelos seus atos poderosos; louvai-o conforme a excelência da sua grandeza.” Salmos 150:2

Nós só temos uma canção pra cantar por causa da iniciativa de Deus de se revelar a Si mesmo para nós e se mostrar a nós poderoso em Seus atos salvadores em nosso favor. Todo louvor é uma resposta à graciosa auto-revelação de Deus.



7. Um ministério empoderado por Cristo

” . . .em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.”

“Dizendo: Anunciarei (eu, Cristo) o teu nome a meus irmãos, Cantar-te-ei louvores (ao Pai) no meio da congregação.” Hebreus 2:12

Nossas músicas agradam a Deus porque Ele veio e, através do nosso Sumo Sacerdote, sua canção se sobrepõe e aperfeiçoa a nossa. Orar e louvar em nome de Jesus é bem mais que colocar Seu nome no final pra dar um efeito máximo; ao invés disso, é saber que somente nEle e por Ele, por meio de Seu sacerdócio e revestidos de Sua justiça, podemos nos aproximar de Deus.



Fonte: http://www.thegospelcoalition.org/blogs/tgcworship/2014/01/27/7-characteristics-of-the-ministry-of-song/







Da Morte No Avião.


[post antigo, republicado]



“(…) a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular.”


(Aristóteles,
Poética,IX,3)


Essa frase me veio à cabeça nesses dias, devido aos acidentes de avião ocorridos aqui e nos EUA. As notícias, na TV ou na imprensa escrita, por mais que nos comovam, nunca nos tocam profundamente, nunca nos coloca na pele dos que tiveram sua vida interrompida. O discurso jornalístico, algo como a História do presente, sempre nos apresenta algo alheio, particular aos acidentados, algo que aconteceu de fato com eles.


O discurso poético, diferentemente, trata do universal, nos apresenta algo que poderia, que pode acontecer com qualquer um, pode acontecer conosco. E por isso, nos toca mais profundamente.


Por issso, se você quer entender de verdade esses acidentes, deixa as notícias um pouco de lado e lê
Morte no Avião, de Drummond, em A Rosa do Povo:





(…)


Ó brancura, serenidade sob a violência
da morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico
golpe vibrado no ar, lâmina de vento
no pescoço, raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícia.

O ESTADO DE EXCEÇÃO POLICIAL E A CONTRADIÇÃO LIBERAL.






O ESTADO DE EXCEÇÃO POLICIAL E A CONTRADIÇÃO LIBERAL.




O Estado policial que se ensaiava desde as repressões das manifestações de junho do ano passado tem se mostrado francamente nesses últimos dias, talvez como um dos grandes legados da Copa do Mundo. Quem tem acompanhado o noticiário nesses últimos dias não tem ignorado o que tem acontecido, mas o “Manifesto de Juristas contra a Criminalização das Lutas Sociais” (http://outraspalavras.net/blog/2014/07/20/juristas-reagem-a-criminalizacao-das-lutas-sociais/) , encabeçado por Fábio Konder Comparato, resume bem as irregularidades:




“Como já foi amplamente divulgado, são várias as ilegalidades percebidas nesse inquérito: 1) orientado por um explícito e inconstitucional direito penal do autor, ele é conduzido a partir de um rol de perguntas sobre a vida política das pessoas intimadas e chegou-se ao absurdo de proceder à busca e apreensão de livros na casa de alguns “investigados”; 2) no decreto de instauração, está expresso o objetivo ilegal de investigar “indivíduos (que) atuam de forma organizada com o objetivo de questionar o sistema vigente”, sem a indicação de qualquer fato específico que constitua crime; 3) a ampla maioria das pessoas intimadas para “prestar esclarecimentos” foi presa ilegalmente, sem flagrante ou qualquer acusação formal de prática de crime; 4) há infiltração de agentes em manifestações, determinada a partir do inquérito e sem autorização judicial.”









Eu não quero, nesse texto, comentar notícias já conhecidas. Pretendo chamar a atenção para uma contradição dentro do movimento liberal (no sentido mais amplo possível da palavra liberal), qual seja, ver liberdades e direitos fundamentais de indivíduos serem violadas – e assistir a isso passivamente.




Sim, porque essas pessoas presas sem provas estão sendo violadas em suas mais básicas liberdades, de pensamento, de expressão e de reunião, além de serem privadas do devido processo legal (http://www.conjur.com.br/2014-jul-22/policia-nega-acesso-inquerito-vaza-grampos-acusa-advogado?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook),tudo isso garantido em Constituição.




Apesar disso, o movimento liberal assiste a tudo isso com um silêncio vergonhoso. Pior, certos setores mais conservadores (liberais?) goza certo prazer na injustiça dos “esquerdopatas”, “petralhas”, “comunas”. Silenciar-se ou apoiar a perseguição, entretanto, fere de morte as convicções liberais mais fundamentais.




Sim, porque não se trata de convicções políticas, de disputas de idéias, mas de perseguições de indivíduos, irredutíveis às suas crenças políticas e inalienáveis de seus direitos fundamentais, trata-se da violação desses direitos. Trata-se, sobretudo, de conivência cúmplice com o Estado, que se utiliza da força policial – que de resto, está mais a serviço do próprio Estado que da população – para restringir liberdades de indivíduos e lança mão de uma máquina de justiça totalmente viciada para cercear defesas e condenar conforme suas conveniências (http://blogs.estadao.com.br/sp-no-diva/as-policias-nao-erram-mais-apenas-nas-periferias-e-a-deixa-para-mudarmos/) . Trata-se de legitimar um Estado de exceção, policial, sem pudor de se impor violentamente sobre qualquer oposição. Um Estado que, inclusive, pode vir a voltar sua violência sobre quem hoje o legitima. A história é pródiga em exemplos disso.




“Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante seu direito de dizê-la.” Esse velho adágio, de autoria incerta, ainda é um belo resumo da convicção liberal de que a liberdade de expressão é inviolável; não se pode negá-lo sem comprometer todo o liberalismo, pois, como bem ensinou Hayek, a liberdade é indivisível.




Pouco importa quais sejam as idéias políticas que essas pessoas defendam, se é passe livre, mais interferência do Estado na economia, educação, pouco importa que seja a defesa aberta do socialismo. Tanto faz. Não se trata de lutar por idéias políticas, mas de defender a inviolabilidade do indivíduo e de suas liberdades mais fundamentais, seu direito de se opor ao Estado e de não ser perseguido por isso. Se os liberais não puderem tomar essa luta para si, se nós não pudermos, mais do que ninguém, defendermos a inviolabilidade do indivíduo, ninguém mais poderá fazê-lo.

TODOS os Direitos Humanos para TODOS os Humanos.


TODOS os Direitos Humanos para TODOS os Humanos.

 

Ah, os Direitos Humanos. Eu gosto deles, mesmo. Afinal, eu também sou um ser humano, embora às vezes pode não parecer. Eu juro que sou.

Não sou da turma dos “Direitos Humanos para humanos direitos”: estou certo de que sou “de direita”, seja lá o que isso quer dizer; direito, nem tanto. Além disso, a apreciação de quem é direito é subjetiva demais para ser base de direitos, maleável a todo tipo de canalhice. A história está cheia de lições sobre o que acontece quando se divide os seres humanos em duas classes, uma de “humanos direitos”, com todos os direitos e a outra, de gente de segunda classe, sem direitos.

Não posso concordar, entretanto, com o uso torto que a esquerda faz desses direitos, instrumentalizando-os para tirar proveitos políticos. Sim, pois quase não é possível fazer uma mera oposição opinativa sem correr o risco de ser levado ao Tribunal de Haia por alguma ONG ou um parlamentar mais sensível às opiniões diversas da sua, mesmo quando são eles que violam os direitos humanos.

Exagero, mas só um pouco. Senão, vejamos.

O texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, de 1948, é um belíssimo texto, sem dúvida. Composto de preâmbulo e trinta artigos, o texto tem por objetivo que “cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades.” Vale a pena a leitura do texto, que é curto, principalmente para perceber que esse objetivo não pode ser alcançado selecionando-se quais artigos devem ser promovidos e quais devem ser esquecidos, uma vez que o texto é um todo que leva em conta a dignidade humana como um todo, sendo que a preferência por um artigo em detrimento de outros põe em perigo a dignidade humana como um todo.

Pois é exatamente isso que a esquerda faz, um desmantelamento do texto, como que  “revogando” alguns artigos

O artigo 3º, por exemplo, diz que “todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.” Quer ver chilique de esquerdistas, põe o povo pra reclamar da insegurança das cidades, de não se sentirem livres para andar em determinado local o horário ou pra usar determinado tipo de roupa ou qualquer outro tipo de coisa, do alto número de homicídios. Qualquer manifestação no sentido que quere garantias de vida, liberdade e segurança pessoal é logo visto como “conservadorismo”. Se o clamor vier da classe média, então, esquece. Classe média não é exatamente ser humano, é uma “aberração política, ética e cognitiva,” como disse a guru da militância, Marilena Chauí, embora eu ainda esteja me esforçando pra entender que classe média é essa que ela diz que desfila de Mercedes-Bens...

Isso para não falar da polícia. Não se vê a esquerda fazer qualquer tipo de censura aos ataques mais ou menos sistemáticos que policiais sofrem por parte de organizações criminosas. Existe um abismo entre repudiar a violência policial e aceitar que trabalhadores sejam mortos simplesmente por sua profissão. Parece que, para alguns, PM bom é PM morto.

Também tem o artigo 12:

“Ninguém será sujeito à interferências em sua vida privada, em sua família, em seu lar ou em sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.”

Ora, o Estado diz que tipos de substâncias eu posso usar, que tipo de automóvel eu posso dirigir (e cobra licença para que eu possa dirigi-lo), que tipo de comida eu posso comer (você sabia que estabelecimentos comerciais não podem vender ovo com gema mole?), como eu devo contratar (a liberdade contratual é cada vez menor), como minha profissão deve ser exercida (vide OAB, mas não só, você não pode dublar desenhos animados para crianças de 5 anos de você não for ator  “de carteirinha”), etc. E nem tente ir ao tribunal querer garantias contra esses arbitrariedades, é perda de tempo. Nenhuma ONG vai fazer passeata por você.

O artigo 13 nós, brasileiros, temos respeitado bem, sou obrigado a reconhecer. Mas quando é para reconhecer aos cubanos o direito de “deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar”, garantido no §2 desse artigo, a coisa já é bem diferente. Nem falemos do silêncio sepulcral sobre as violações desse artigo na China e na Coreia do Norte. De todos, diga-se de passagem. Ao invés de ataques, esses regimes merecem loas, como o recente artigo de Tarso Genro elogiando o regime chinês (“Uma perspectiva de esquerda para o Quinto Lugar” facilmente encontrado na internet) e a nota de apoio do PC do B ao regime norte-coreano não tem muito tempo. Para uma boa parte da esquerda, chineses e norte-coreanos, assim como a classe média, é ser humano de segunda classe, se muito.

Vejamos o artigo 14:

“1. Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.

2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas.”

O primeiro parágrafo foi violado pelo governo petista quando negou asilo a Edward Snowden – antes mesmo de qualquer pedido; o segundo, quando concedeu asilo ao terrorista italiano Cesare Battisti, condenado por quatro homicídios em seu país. Esse ato do governo teve todo o apoio da esquerda; aquele, nenhum repúdio.

Diz o artigo 15, parágrafo primeiro, que “Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade.” Não é difícil encontrar, entretanto, gente que negue esse direito aos judeus com seu anti-sionismo (e não só entre as fileiras da esquerda, sejamos sinceros, antissemita é erva daninha que dá em qualquer canto). Esquecem-se mesmo do contexto em que o texto foi declarado, sob o recente trauma do Holocausto nazista e dos terrores da Segunda Guerra Mundial. Não à toa, a Declaração foi adotada no mesmo ano da criação do Estado de Israel.

E o que falar do artigo 17, esse excrecência que não sabemos como ainda não foi expurgada da declaração?

“1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.

2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.”

É claro que, se esse direito fosse respeitado, todos os expropriados da Copa do Mundo e de outras obras faraônicas ainda estariam em suas casas, a menos que quisessem negociar suas propriedades. Mas a gente não tem muito o costume de atribuir também ao trabalhador comum o direito de propriedade. Afinal, se ele é explorado a um salário de fome, como é que ele vai conseguir ter casa própria? Mas direito de propriedade é tudo que os pobres precisam para se manter a salvo dos desmandos do poder econômico dos outros, como Diogo Costa mostra em seu belo texto,” Contra a iniciativa privada dos ricos que é contra a propriedade privada dos pobres” ( http://goo.gl/lfswhW ):

“Políticos prometem cestas e bolsas para os pobres; prometeram "auxílio-produção" aos desapropriados. Mas negam aos pobres exatamente aquilo que pode fazer com que eles não dependam mais de cestas nem de bolsas: o direito de serem donos das suas coisas. Em vez disso, os pobres permanecem dependentes de favores na época de eleições, de decisões políticas tomadas em gabinetes fechados, da boa vontade do judiciário e de deliberações intermináveis travadas em conselhos comunitários.”

 Vamos ao artigo 18:

” Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.”

Tenta-se, a todo custo, anular esses artigo. Segundo a “Open Doors International’s 2014 World Watch List”, entre outubro de 2012 e 2013, 2123 cristãos foram mortos no mundo todo por causa da sua fé sob o silêncio da opinião pública e da comunidade internacional (http://goo.gl/IAVYfY). Na França – não no Iraque ou na Síria, na França, se você tentar manifestar sua fé (qualquer fé) na esquina ou em praça pública você pode ser preso por crime de seita. Aqui, tenta-se criminalizar os dogmas da fé cristã como machistas, homofóbicos, racistas. Tenta-se limitar a liberdade de manifestação de crença ou religião ao exercício privado, quase exclusivamente caseiro, da devoção. Até mesmo o sacrifício de animais por religiões que o fazem tenta ser impedido. Afinal, animais também são humanos; religiosos, nem tanto.

Isso não é à toa. Como bem demonstrou Lew Rockwell e Ron Paul, os líderes políticos, em geral, e os da esquerda, em particular, assim como seus asseclas, todos esses odeiam a religião porque ela disputa com eles a lealdade das pessoas, suas mentes e corações (“Igreja, estado e políticos - o estatismo quer ser a nova religião oficial”, em http://goo.gl/sU1t45). Afinal, uma consciência moral individual que se  examina seus atos diante de Deus segundos princípios objetivos e tidos por absolutos jamais adotará a moral teleológica revolucionária de Trotsky em “A moral deles e a nossa” (título que a juventude do PSTU resolver alterar para “Moral e Revolução” em sua tradução, disponível em http://goo.gl/qtwur1 , sabe-se lá porquê), submetida a programa de partido, cauterizada de todo “moralismo burguês”, todo julgamento individual.

E o artigo 19?

“Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.”

Quanto não são ofendidos, perseguidos, processados e condenados, moralmente linchados por mero “crime de opinião”? Quantos não foram a judiciário por causa de piadas? Quantos já não se mobilizaram para conseguir a demissão de por exemplo, Reinaldo Azevedo e Rachel Sheherazade? Quantos até já não exigiram essas demissões, com o dedo em riste, certos de que sua superioridade moral está acima de qualquer direito? O que não é tudo isso senão querer silenciar pessoas? E o silêncio cúmplice quanto às censuras em Cuba, na China e Coreia do Norte? E o apoio do PT, partido governista, por meio de nota (http://goo.gl/coIjZP), à repressão aos protestos dos estudantes contra governo Maduro na Venezuela, considerados “fatos e ações com vistas a desestabilizar a ordem democrática na Venezuela”?

Se temos sido razoavelmente diligentes com o primeiro parágrafo do artigo 20, que diz que “todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica”, o parágrafo 2º, “Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação”, já não goza do mesmo cuidado. Ninguém pode advogar sem ser membro da OAB, o que equivale a uma associação compulsória. O mesmo vale para outras profissões. A obrigatoriedade de se obedecer aos acordos sindicais também não deixa de ser uma associação compulsória, assim como o imposto sindical obrigatório, já que tratam todo indivíduo trabalhador como membro de sindicato. De resto, fica a provocação: a filiação automática de todos os estudantes aos XI de Agosto viola direitos humanos ???

O artigo 26 diz que “os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.” Só tem um problema: não há “gêneros de instrução” a serem escolhidos pelos pais. O MEC dita os parâmetros e uniformiza os currículos escolares de todas as escolas do país, obriga a matrícula a partir dos 4 anos (4 anos!), proíbe o ensino por tutoria e o homeschooling. Que escolha há senão entre a escola cara que passa direitinho o programa do governo e a escola pública que mal ensina a ler e a escrever? De que vale a variedade de métodos quando todo o conteúdo é padronizado?

Na verdade, está relacionado diretamente com duas coisas. A primeira é a confusão entre educação e ensino formal. Como bem ensina Murray Rothbard, em “Educação: Livre e Obrigatória”, disponível em http://goo.gl/RyLZZW :

“Todo este processo do crescimento, de desenvolver todas as facetas da personalidade do homem, é sua educação. É óbvio que uma pessoa adquire sua educação em todas as atividades de sua infância; todas as horas em que está acordada são gastas no  aprendizado de uma forma ou de outra. É claramente absurdo limitar o termo “educação” para um tipo de escolaridade formal. A criança está aprendendo a todo instante. Aprende e forma ideias sobre outras pessoas, seus desejos, e ações para alcançá-los; sobre o mundo e as leis naturais que o governam; e sobre seus próprios fins, e como alcançá-los. Formula ideias sobre a natureza do homem, e quais fins (seus e dos outros) devem estar em acordo com esta natureza. Este é um processo contínuo, e é óbvio que o ensino formal constitui apenas um item neste processo.”

Ao trancarmos crianças o dia inteiro na escola, não estamos dando a elas uma educação melhor, pelo contrário, estamos lhes dando uma educação incompleta, limitada, que reduz o desenvolvimento humano à aprendizagem de álgebra e gramática. Ensino integral, se implicar alienação da família e da comunidade do processo educacional, é educação pela metade, e isso é um crime.

O segundo problema é achar que a educação serve não para dar à criança os meios de desenvolver todas as suas potencialidades individuais únicas, físicas, intelectuais e morais, com vistas a torna-la um adulto pleno e independente, responsável por si e por seus atos, mas para ensiná-la como contribuir com o todo social, como submeter sua vida a projetos políticos, econômicos e sociais que, pretensamente, visam o bem do “todo”, seja esse todo o partido, a pátria, a América Latina, a comunidade internacional ou o planeta enquanto entidade ecológica, destruindo personalidades individuais com um rolo compressor de padronização doutrinária que faz de multiformes potencialidades uma achatada figura de “bom cidadão” de repúblicas platônicas. Isso não é educação, é doutrinação. Nesse quesito, mais uma vez vale a pena atentar para Rothbard:

“É evidente que o comum entusiasmo pela igualdade é, num sentido fundamental, anti-humano. Tende a reprimir o desenvolvimento da personalidade e diversidade individual, e da civilização; é um impulso para a uniformidade selvagem. Visto que habilidades e interesses são naturalmente diversos, um impulso para tornar as pessoas iguais em todos ou quase todos os aspectos é necessariamente um nivelamento por baixo. É um impulso contra o desenvolvimento do talento, gênio, variedade e poder de raciocínio. Visto que nega os princípios fundamentais da vida humana e crescimento humano, o credo da igualdade e uniformidade é um credo de morte e destruição.”

Mas o melhor ficou para o final, ou melhor, para o começo. Diz o artigo 1º:

“Todas os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.”

Esse espírito de fraternidade, apoiado na razão e consciência que cada indivíduo tem e que confere dignidade a cada um, dignidade essa que cada um livre e igual por natureza, é um antídoto para políticas paternalistas, que julgam governantes seres iluminados, acima dos governados, estes vistos como seres incapazes de vencer na vida por si por próprios e de decidirem o que é melhor pra suas vidas, enfim, incapazes de serem livres para serem eles próprios por si mesmos, seres diferentes, humanos de segunda classe. Todo “pai dos pobres” se julga acima deles e capaz de guiar suas vidas. Não dá pra ser pai e irmão ao mesmo tempo, não dá pra se achar acima e no mesmo nível ao mesmo tempo. Cada governante que despreza a razão e a consciência individual de seus governados é um grande violador dos direitos humanos.

Ainda sobre esse artigo, o que falar sobre a patrulha ideológica, que reduz todos a estereótipos ideológicos dos quais ninguém pode fugir sem ser caçado. Para os patrulheiros, não existe indivíduo, dotado de razão e consciência, como o artigo fala: existe operário, burguês, estudante, mulher, LGBT, hétero, homem, negro, branco, índio, entre outros papéis sociais muito bem definidos pelas suas teorias, sendo que aqueles que as contrariam causam verdadeira fobia nos vigilantes da moral esquerdista. Isso explica porque todo trabalhador que desgosta da ação dos sindicatos e dos “partidos dos trabalhadores” (PT, PSOL, PSTU, etc) é tido por alienado. Isso explica porque, um dia desses, apareceu na timeline do meu Facebook alguém reclamando que um tal “feminismo liberal” estava tumultuando as discussões de um grupo feminista. Isso explica porque um estudante negro diz que acha bizarro um outro estudante negro não apoiar cotas para negros (isso ocorreu em um debate na Sala dos Estudantes do Largo de São Francisco, http://goo.gl/sDS1Af ). Isso explica porque qualquer pensamento mais a favor da economia de mercado é tido como fascista – mesmo o fascismo tendo sido antiliberal. Isso explica porque todo crítico do bolivarianismo venezuelano é tido como imperialista, seja lá o que isso quer dizer. Isso explica porque toda essa caçada à Rachel Sheherazade, afinal, é inadmissível uma mulher nordestina pensar como um “homem-branco-heterossexual-burguês.” Isso trai a teoria, e não há nada pior que uma realidade que trai a teoria.

Esses são artigos geralmente esquecidos pelos “ativistas” dos direitos humanos, que enchem a boca pra usar-se da expressão quando lhes interessa. Não me esqueci dos outros, nem me oponho a eles, não os mencionei porque estes já tem seus defensores, seus ativistas, seus militantes. Não sou contra essas pessoas, eu quero o que elas querem. Na verdade, quero mais que eles, bem mais: quero todos os Direitos Humanos para todos os humanos. Porque eu não acredito em seres humanos de segunda classe.