Humor ou Barbárie.

As notícias sobre o massacre de Charlie Hebdo, logo pela manhã, me deixaram atordoado. Imediatamente, me vieram à mente as palavras do filósofo romeno Andrei Plesu, no seu texto Tolerância e o intolerável: crise de um conceito, que está no livro Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental e outros ensaios:

(...) Uma fonte muito consistente de tolerância, insuficientemente levada em conta, é o humor. Assistires ao espetáculo do mundo sem exasperação, saberes alegrar-te com o fascínio multicolorido do real, teres capacidade de distinguir as coisas (poucas em número) que devem ser levadas a sério, das que (muito numerosas) não devem ser levadas a sério, e, principalmente, não te levares muito a sério, com tuas opiniões pomposas, com as certezas feitas prontamente, com tuas exigências mais ou menos hipócritas - eis uma motivação muito fundamentada do espírito de tolerância.

De fato, quando não se sabe mais que uma piada, mesmo com todo o fundo crítico e/ou preconceituoso que possa ter, não é mais que uma piada, que, no máximo, merece a crítica de volta, preferencialmente bem humorada, quando essa resposta é o amordaçamento, na base da bala ou da canetada, é bem mais que a piada que está em jogo. O que se tem são pessoas e grupos que se levam tão a sério que não sabem brincar, pois se veem acima de qualquer crítica, como se todos devessem reverência a eles.
Os cartunistas do Charlie Hebdo não davam a mínima pra isso, eram irreverentes, irresponsáveis, como diz em algumas capas, não perdoando ninguém, políticos, religiosos, celebridades, ninguém. Passavam do ponto, às vezes? Eu diria que sim, alguns diriam que não, mas isso pouco importa. Sempre se poderia respondê-los, criticá-los, até mesmo ridicularizá-los, digamos que poderiam mesmo acioná-los no judiciário - nunca feri-los, nunca matá-los. Quando não se suporta o humor, se cai na barbárie.
O que deve nos deixar alertas. Muitos tem apontado o dedo para os muçulmanos, acusando sua religião, mas, mesmo tendo em vista a minoria extremista, o fato é que o quadro não é bom para o humor de uma forma geral, no mundo todo. O mundo está mal humorado.
Seis pessoas foram presas no Irã por dançarem "Happy", do Pharell; Chris Rock deixou de se apresentar para estudantes porque eles se sentem ofendidos com tudo; hackers quase impediram o lançamento de um filme que zoava o chefe da Coreia do Norte.
Aqui no Brasil o quadro também não é tão animador: Gustavo Mendes, imitador da presidente Dilma, foi agredido em uma apresentação; o Porta dos Fundos teve um vídeo retirado do ar (liberado depois) por criticar Garotinho; o mesmo grupo foi processado por Marcos Feliciano por conta de um especial de Natal; Gregório Duvivier foi hostilizado em um restaurante; Danilo Gentilli teve que retirar da internet um vídeo em que fazia piada com uma doadora de leite.
Todos os casos acima são recentes e foram lembrados por mim de improviso, sem pesquisa maior. Se eu pesquisar, certamente vem mais coisa.
Se comparam os casos acima com o massacre de Paris? Obviamente, não; é preciso ter senso de proporção e, sobretudo, respeito com a vida e com os mortos. Agora, uma coisa é certa: o mundo está cada vez mais mal humorado - e, como lembram os atiradores de Charlie Hebdo, isso é um perigo pra cultura de tolerância.