O UBER E OS LUDITAS DE HOJE.



(originalmente publicado na page do EPL São Paulo)



Março de 2001: o Napster, software revolucionário que permitia com que as pessoas do mundo todo baixassem músicas em seus computadores de graça, em rede P2P, parou de funcionar. O serviço foi fechado devido a uma série de processos de companhias de empresas fonográficas, que alegavam que o software violava direitos de copyright (o equivalente ao nosso direito autoral) ao permitir a distribuição ilegal de música, o que afetava diretamente os negócios – e o lucro dessas companhias.



Poucos dias depois do fechamento do Napster, já havia uma série de softwares semelhantes a ele que permitam a troca de música via P2P, como eMule, Ares Galaxy e BitTorrent. Hoje, 14 anos depois, nada é mais fácil do que baixar discos inteiros de graça na internet, e não só música, mas também filmes e séries, apesar do cerco das grandes companhias de entretenimento, que tiveram que se adaptar ao novo ambiente de mercado.



Abril de 2015: a Justiça de São Paulo determina a suspensão das atividades do aplicativo Uber, que oferece serviços de “carona paga”, na prática, faz intermediação entre motoristas autônomos e quem precise do serviço. A suspensão, liminar, atende ao pedido do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores nas Empresas de Táxi de São Paulo, categoria que tem o monopólio do transporte individual pago ameaçado pela concorrência do aplicativo (esse monopólio, é importante ressaltar, não é culpa dos trabalhadores da categoria, mas uma imposição do Estado, grande beneficiário desse monopólio, que ganha rios de dinheiro com o “mercado” de licenças para atuar na atividade).



Pode ser que, por enquanto, a Justiça consiga atrapalhar as atividades com o aplicativo, ou mesmo tirá-lo do ar definitivamente. Como o caso do Napster mostra, entretanto, é impossível impedir que o avanço tecnológico remodele a forma como lidamos com o mundo, seja como ouvimos música ou como contratamos serviços de transporte. Mais cedo ou mais tarde, a tecnologia as restrições estatais obsoletas, ainda que legalmente válidas, e o mercado de transporte individual terá de se adaptar a essa nova realidade.



Nos tempos da primeira revolução industrial, um grupo de operários conhecido como ludditas quebrava as então inovadoras máquinas industriais a vapor por pensarem que essas máquinas tomavam seus empregos. Hoje, achamos pitoresca esse tipo de atitude, embora, como o caso do Napster e do Uber nos mostram, sempre aparecem grupos para agir do mesmo modo pitoresco. Como os casos passados mostraram, entretanto, é impossível barrar o avanço tecnológico e seus efeitos, ainda que isso vá contra o interesse de alguns.



A luta contra a tecnologia é sempre uma luta vã. Se é sábio atentar ao brocardo que diz que ninguém pode obrigar outro ao impossível (“ad impossibilia nemo tenetur”), então também deveríamos parar com a mania de proibir o inevitável.













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