As Ditaduras da modernidade - Dom Orlando Brandes

As Ditaduras da modernidade

  Dom Orlando Brandes

A cultura hodierna privilegia o individualismo que não é o mesmo que subjetividade. As tradições, normas e instituições entram em crise. A dignidade da pessoa não se confunde com subjetivismo, muito menos com arbitrariedade. Nossa vocação é a de sermos irmãos para não morrermos como loucos. Vejamos algumas das ditaduras da modernidade.
1.    A ditadura do relativismo.  A expressão é de Bento XVI. A filosofia do relativismo, inverte valores, torna bem o que é mal, cultua o ego, os gostos, os desejos, as satisfações e o bem-estar individual. Nega os valores absolutos, a ética, as certezas, os rumos, as seguranças. Há uma “soberba filosófica” que leva cada um julgar-se absolutamente dono de suas decisões, aceitando cada vez menos as orientações éticas. Impõe-se o clima de permissividade e sensualidade na lógica do individualismo. Não podemos sacrificar a verdade objetiva, nem as normas éticas universais, para sermos escravos do relativismo.
2.    A ditadura do esteticismo. Pessoas morrem por obediência ao esteticismo, ao culto do corpo esbelto, magro, bem ao gosto do figurino da moda consumista. Morre-se em cirurgias plásticas, lipoaspiração e jejum das pessoas escravizadas pelas regras e leis do “tipo modelo”. Como sofrem e até são excluídas as pessoas que não correspondem às medidas de um corpo atraente. Todos querem ser magros e malham o corpo sob o comando da escravização da moda. Morre-se por causa da ditadura da magreza. Cuidar do corpo é um dever e a beleza é reflexo de Deus, mas o esteticismo é um engano.
3.    A ditadura da cultura homoerótica. As pessoas homossexuais devem ser respeitadas. Os assassinatos de pessoas gays é uma exarcebação do machismo, da discriminação e do abuso do preconceito. Todavia, a Proposta de Lei contra a homofobia, assim como está hoje em discussão, é um revanchismo exagerado. Que as pessoas com orientação sexual homoerotica têm direito à segurança jurídica e ao contrato civil, é uma coisa. Outra coisa, é o despotismo vigente no projeto contra a homofobia.
4.    A ditadura filiarcal. O centro da família moderna hoje são os filhos. Crescem endeusados, sem limites e com poucos valores. Tornam-se onipotentes e depois delinqüentes. Os pais passam a ser reféns de suas crianças egocêntricas. Elas determinam o que comer, o que vestir, onde passear, o que comprar. São duplamente vitimas, do consumismo e filiarcalismo. O centro da família é o casal, não as crianças. Elas precisam do referencial paterno e materno. Criança folgada, crescerá descentrada, e dificilmente aceitará a disciplina, os limites e os valores objetivos.
5.    A ditadura do consumismo. A ideologia do bem-estar leva à busca da satisfação imediata, do desejo de consumo, da criação de necessidades desnecessárias. A avidez do mercado descontrola o desejo das crianças, jovens e adultos. Legitima-se que os desejos se tornem felicidade. Os pobres são perdedores, explorados, excluídos, supérfluos e descartáveis. A desigualdade social é uma iniqüidade que precisa ser superada. O consumismo nos trouxe a depredação da natureza, a desigualdade cada vez maior entre ricos e pobres, a ruína dos valores, as doenças típicas da modernidade.

6.    A ditadura do individualismo. Eu quero, eu sei, eu decido, são expressões do individualismo, da autonomia quando não da arbitrariedade subjetivista. A cultura do individualismo confunde individualidade com subjetivismo. Para satisfazer os desejos dos indivíduos temos a cultura do ter, a civilização do consumo, a ética do agradável, o aumento do narcisismo que resumimos na palavra “hiperindividualismo”. A ditadura do individualismo rompe com a ética, com a família, a religião, as instituições, as responsabilidades. Acontece então a privatização da fé, a fragmentação da vida, a relativização dos valores. O bem, a verdade, a liberdade e o amor nos convocam à comunhão e à fraternidade superando a elevação do ego e seu endeusamento. Somos criaturas, precisamos dos outros, comunhão é nossa vocação.
 

Dez teses contra Babel - Luiz Felipe Pondé

Não concordo com tudo, mas vale a pena ser lido.
Dez teses contra Babel
LUIZ FELIPE PONDÉ
A atitude conservadora, que não é defesa irracional do passado, significa o cuidado com nossa história cognitiva, emocional e intelectual
1. REACIONÁRIO é um termo comum em assembléias e bares. Visa tornar a vítima inelegível para jantares inteligentes, aniquilando a sua vida acadêmica. Pensamento, sensibilidade e ceticismo são termos mais afeitos à crítica que supera os vícios da medrosa utopia moderna. Paralisado diante do que desconhece, o medo moderno prefere reduzir essa atitude a seus fantasmas infantis: fogueiras da inquisição, fé cega e obscurantismo medieval.
Erra, como todo preconceituoso, pois a discussão se dá estritamente no campo da razão e da defesa do comércio livre de idéias. A atitude conservadora -que não é uma defesa irracional do passado- significa o cuidado com nossa história cognitiva, emocional e intelectual contra a tendência totalitária do irracionalismo moderno, que detesta a realidade e decide modificá-la à luz da teoria que melhor apetece às suas pequenas manias inconfessáveis.
2. Esse irracionalismo fracassado delira com um mundo a partir de teorias de gabinete e suas reconstituições abstratas da realidade. O homem utilitarista de mercado, a metafísica marxista, o radical progressista, a asfixia burocrática, o gozo instrumental, a álgebra psicopolítica, todos estrangulam a experiência humana.
3. O pensamento religioso é mais sábio do que os ídolos dos últimos 200 anos que criaram fórmulas de perfectibilidade para nossa risível Babel. Filosofia, ciência e religião devem fundamentar a formação dos mais jovens. A relação entre razão e infelicidade é empírica, a relação entre razão e felicidade é ideal. Contrariamente ao pensamento mágico que se crê científico, reconhecer a sabedoria da religião nada tem a ver com a contradição moderna entre razão e fé, pois tal oposição já é fruto de má filosofia.
4. A natureza humana não é passível de redução a abstrações e deve ser olhada com respeito e temor: somos agressivos, banalmente interesseiros, às vezes santos. A “educação” -engenharias pedagógicas de última geração- nunca conseguirá “inventar” o homem ético abstrato. Contra o sonho da publicidade psicossocial, razão e emoção não fundam valor. Nem se deduz avanço a partir dos clichês da crítica social. Crítica e virtude não são necessariamente irmãs gêmeas.
Formação é um conceito mais sofisticado do que os manuais de felicidade social podem ensinar. A conduta humana é em muito fruto de processos que transcendem a especulação racional e deitam raízes no passado ancestral. Prudência, delicadeza e tremor devem nos guiar na formação.
5. O “puritano” moderno ama o homem abstrato e detesta a multiplicidade intratável que sangra. Facilmente ele se torna um pregador sem a contrapartida da piedade, que apenas aqueles que se sabem maus podem, talvez, contemplar.
6. Para além do mapa astral e do acúmulo do capital, um problema estrutural do humano é o orgulho desmedido e reativo contra sua evidente condição de sombra, silenciosamente contemplada no espelho e nos hospitais ao longo da banalidade das horas. Responsabilizar prioritariamente o contexto pela desgraça humana é uma mentira científica e tagarela.
7. Todo governo é opressor. O que impede que sua forma invisível esmague o indivíduo são as instâncias intermediárias de poder entre ele e o Estado, que jamais deve ser um agente moralizador. O pior Estado é aquele que cria valores. A importância da Idade Média, entre outras coisas, está na falta de uniformidade das instâncias de poder, mas o irracionalismo moderno só conhece a Idade Média dos iluministas e do cinema. A democracia corre o risco de se alimentar de mediocridade em nome da igualdade e da eficácia.
8. Mudanças pontuais e prudentes contra a agonia humana são bem-vindas, mas não a partir de teorias sociais ou psicológicas gerais. Nossa perigosa espécie acumulou ao longo dos milênios um delicado equilíbrio contra o risco contínuo de autodestruição. Não podemos crer nas engenharias psicossociais de almas afoitas em fundar um paraíso para seres com tão grande vocação para a mentira como nós.
9. Um traço cognitivo moderno é seu hábito metafísico inconsciente. Por exemplo, não existe tal coisa denominada “A liberdade”, mas apenas lugares onde o governo, a mídia e as outras pessoas não podem entrar quando são indesejáveis.
10. Mais do que idéias, e contra o narcisismo dos vivos, o que nos humaniza é o convívio com os mortos e com os que ainda não nasceram.

LUIZ FELIPE PONDÉ, 47, filósofo e teólogo, é professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e da da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado). É autor, entre outras obras, de “O Homem Insuficiente”.
Publicado na Folha de São Paulo de 20/03/2007.

Feliz Ano Novo.

Feliz Ano Novo!


Para entrar bem 2009.

Um país fechado para Deus – será?

Um país fechado para Deus – será?


Essa é para você que já deixou o formato do seu bumbum na deformado na cadeira da igreja:
Coréia do Norte
Desde agosto de 1945, ao fim da Segunda Guerra Mundial, a península coreana foi dividida por uma linha invisível chamada Paralelo 38. De um lado, a Coréia do Sul com economia estável e governo democrático; do outro, a Coréia do Norte, atualmente a primeira colocada no ranking dos países que mais perseguem o cristianismo no mundo, não permitindo, em hipótese alguma, a liberdade política ou religiosa. Apesar de a igreja na Coréia do Norte ter começado há cerca de 120 anos, é marcada hoje pelo martírio cruel daqueles que permanecem firmes na fé. Paul Estabrooks, autor do livro Fuga da Coréia do Norte, informa que, no ano de 2005, mais de 20 cristãos foram mortos em fuzilamentos públicos ou por espancamentos nos campos de prisão norte-coreanos.
Foi de um ponto da divisa desse país que recebemos recentemente uma informação de um obreiro local. Ele foi despertado de madrugada com a notícia de que alguns homens que haviam cruzado o rio que divide a Coréia do Norte da China, com o objetivo de pregar o evangelho, foram pegos enquanto distribuíam certos “livros”. Do grupo, 28 foram torturados e mortos enquanto apenas dois conseguiram fugir e cruzar novamente o rio. Os que sobreviveram estão firmemente decididos a retornar ao local de risco e dar continuidade ao trabalho já iniciado. O clamor deles é para que haja intercessão!
A maneira como esse homem termina seu relato tocou-me profundamente:
Levantei-me para pensar e ligar pedindo ajuda. São 2h00 da madrugada. Tentei ligar; impossível, não consegui achar ninguém… Então decidi orar ao SENHOR e pedir que os ajude. Pedidos vêm da China e da Coréia. Meu coração está atribulado. O que eu faço? As pessoas imploram por Bíblias, por comida, por fundos. São duas da madrugada e permaneço clamando ao Senhor.
Imaginava?

Breve Reflexão Pascal – O Ocidente pós-cristão.

O Ocidente se funda em dois fatos: a mortalidade de Sócrates e a imortalidade de Cristo.

A morte de Sócrates fundamenta toda a nossa filosofia. Basta lembrar que quase a totalidade dos diálogos platônicos tem como personagem Sócrates, inclusive a sua Apologia, e, quanto a Aristóteles, o exemplo de silogismo mais expressivo e conhecido de sua lógica é:
Todos os homens são mortais,
Sócrates é um homem,
Logo, Sócrates é mortal.
Todo o resto da filosofia ocidental deriva disto, inclusive o que o refuta, e nisto se fundo o nosso senso de racionalidade e de mortalidade.
Já a obra de Cristo na Terra, Sua vinda, Sua morte e Sua ressurreição, deu ao Ocidente o senso de espiritualidade e de imortalidade. Sim, Sócrates já cria na imortalidade na alma, mas não nos esqueçamos que a eternidade sem Cristo não é mais que a morte eterna. Foi Cristo quem disse:
“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.”
João 11:25
Foi isso que permitiu ao Ocidente se desenvolver do jeito que se desenvolveu: um equilíbrio entre razão e fé, ciência e religião, filosofia e teologia.
Entretanto, desde o Iluminismo que assistimos à construção de um Ocidente pós-cristão, destituído de fé, espiritualidade e, conseqüentemente, de profundidade, uma civilização onde toda a virtude é a razão, onde o homem não passa de carne destinada a apodrecer, onde todos estão sob o domínio de Hades. O Ocidente de hoje é um homem que não pode mais se equilibrar, pois teve sua perna amputada. Isso tudo que temos visto.
O Ocidente pós-cristianismo é igual ao Ocidente pré-cristianismo e aquele precisa da mesma coisa que este precisava: de Cristo.
Feliz Páscoa.

5 notas a um conto de Machado de Assis

Machado é invariavelmente “acusado” de colocar o enredo de suas histórias, longas ou curtas, em segundo plano, servindo esta de “pano de fundo” para a “análise de caracteres” típica de seus escritos.
O autor deste texto faz algo parecido: deixando um pouco de lado a análise do enredo do conto Eterno!(publicado no livro Páginas Recolhidase que é o conto machadiano aqui em questão), este texto divide com seu leitor algumas notas pontuais e aparentemente esparsas sobre o texto.
I
Um poema elegíaco (Álvares D’Azevedo, publicado em 1858 n’A Marmota) e um texto crítico ( Álvares de Azevedo: Lira dos Vinte Anos, publicado em 1866 no Diário do Rio de Janeiro) deixam claro a admiração de Machado pelo poeta romântico precocemente morto. Não seria de se espantar ver referências a Azevedo nos textos de Machado.
Norberto é romântico, sentimentalista; Simeão, por sua vez, é hedonista, dado às moças e aos bons charutos e inimigo dos estudos. Um é idealista, platônico; o outro, é cético, materialista.
Parece, então, que Machado fundou a personalidade das personagens principais do conto nos dois termos da “binomia” em que Álvares de Azevedo funda a unidade de seu livro, segundo revela no prefácio à segunda parte da Lira dos Vinte Anos: platonismo e ceticismo. Sendo o poeta autor da Lira de predileção entre os jovens estudantes da época e ele mesmo tendo escrito os seus textos, os platônicos e os céticos, muito jovem, parece que Machado foi buscar no livro de Azevedo um repositório de tipos e caracteres da juventude de sua época.
II
Ingenuidade romântica de um lado, ceticismo hedonista de outro, o que temos em Norberto e Simeão são dois meninos, dois  “moleques”, dois jovens descabeçados – ou cabeçudos, como preferir. Ora, quem melhor para por freio às “criançadas” destes meninos senão a “velha”, “experiente”, “sábia” figura paterna ? Ela figura discreta, mas decisivamente na nossa história.
Primeiro, o tio de Simeão, chamando o sobrinho-agregado de volta à Bahia, pondo fim à farra do tutelado no Rio; depois, o pai de Norberto, frustrando os planos do filho de acompanhar o amigo – e a amada – em suas viagens de volta; sem os dois a tomar decisões “arrazoadas”, sem colocar o ponto final à farra de um (deliberadamente) e à loucura do outro (ainda que sem saber), teríamos outro conto. Simeão não voltaria à Bahia; Norberto não ficaria no Rio. Talvez nem tivéssemos um conto “machadiano”…
III
Machado é mestre em contar histórias que não podem ser contadas quando elas já podem ser contadas, após a morte dos envolvidos ou próximos desta, quando elas já não têm mais cara de futrico, de fofoca, e tomam feição de contos exemplares da condição humana.
Argumento neste sentido nos dá o narrador deste conto para nos contar este conto.
“ (..) Assim é que, se um homem de Estado escrever e publicar as suas memórias, tão sem escrúpulo, que lhes não falte nada, nem confidências pessoais, nem segredos do governo, nem até amores, amores particularíssimos e inconfessáveis, verá que escândalo levanta o livro.(…)
… Mas deixai pingar os anos na cuba de um século. Cheio o século, passa a documento histórico, psicológico, anedótico. (…)”
(ASSIS, s.d.; 26)
Pois é: o que o narrador nos apresenta e nós lemos não é simples relato de um episódio particular de um indivíduo qualquer, uma confissão de podres passados, uma fofoca postergada.
Não: é um “estudo de caso”, é um documento, é uma análise da alma humana que só quem tem a frieza daquelas que ficam à janela espiando e escrutinando a vida dos outros consegue fazer.
Que a “cuba dos séculos” ainda estivesse quase três quartos vazia, é mero detalhe…
IV
Simeão fazia chacota com a ingenuidade romântica de Norberto, mas ele mesmo se revela ingênuo em sua esperteza. Já na Bahia, quando começa  a por em prática seu plano de sondar Iaiá Lindinha em favor do amigo, que aguarda relatórios no Rio, o nosso esperto jovem passa a freqüentar a casa da Baronesa, a ter conversas com ela, a familiarizar-se com ela – sem desconfiar que podia ele mesmo se apaixonar por ela, muito menos que esse sentimento pudesse ser correspondido por ela…
Se, de um lado, Norberto superestimava a figura feminina da esposa do Barão, por outro, Simeão subestimava a figura feminina de Iaiá Lindinha  – que não tinha esse apelido à toa… Dois meninos inexperientes diante do enigma indecifrável chamado Mulher.
É como Leoni canta em Garotos: “ Garotos como eu/ Sempre tão espertos/ Perto de uma mulher/ São só garotos.”
V
Ao firmarem o pacto, antes de Simeão viajar, Norberto, ao pedir as cartas ao amigo, afirma que “o desengano matá-lo ia, porque esse amor [o seu por Iaiá], eterno como era, iria fartar-se na morte e na eternidade.”(ASSIS, s.d.; 25)
Anos mais tarde, quando o marido de Iaiá vai, receoso, à casa do amigo, em passagem pelo Rio, este descreve seu sentimento pela esposa, Carmela, que já lhe tinha dado dois filhos, assim?
“-Viste-a bem? (…) Não te digo o sentimento que nos prende, estas coisas sentem-se, não se exprimem. De que sorris? Achas-me naturalmente criança. Creio que sim, criança eterna, como é eterno é o meu amor.”
(ASSIS, s.d.; 29)
Há alguma diferença essencial entre esses dois amores “eternos”?  Entre aquele do menino estudante, aquele que o fazia não dormir, pensar em atirar-se no mar, que iria se fartar “na morte e na eternidade”, que lhe impelia a fazer “criançadas”, e o outro, do pai de família carinhoso, que fazia com que ele tivesse “adoração” pela esposa, que o tornava “criança eterna”?
A meu ver um só: o seu objeto. O sentimento de Norberto por Carmela é, mutatis mutandis, o mesmo amor romântico que ele tinha por Iaiá. Se não era um amor desesperado era pela circunstância de ele estar saciado, junto de sua amada. De resto, é o mesmo sentimento infantil.
O amor romântico diz muito mais sobre o amante do que sobre o amado…
Bibliografia:
ASSIS, Machado de. Páginas Recolhidas. Belém: NEAD: Núcleo de Educação Distância, s.d. Disponível emwww.nead.unama.br
ASSIS, Machado de. Poesias Dispersas. Disponível em http://machado.mec.gov.br/
ASSIS, Machado de. Álvares de Azevedo: Lira dos Vinte Anos. Disponível em http://machado.mec.gov.br/
AZEVEDO, Álvares de. Macário. Belém: NEAD: Núcleo de Educação Distância, s.d. Disponível emwww.nead.unama.br

Manias, de Cesário Verde - Uma Leitura

Manias
  
O  mundo é velha cena ensangüentada.
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.
 
Eu sei um bom rapaz, — hoje uma ossada —,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.
 
Aos domingos a déia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,
 
Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!
 Cesário Verde
                                                                   
 
 A teoria clássica dos gêneros dá como principal característica da lírica, ou gênero lírico, a expressão de um eu-lírico, com foco na sua subjetividade. Essa centralidade no sujeito sempre significou – e no Romantismo se acentuou ainda mais – a expressão sentimental do sujeito, a expressão de suas emoções, seus sentimentos.
A estética Realista veio em contraponto a essa estética Romântica:  ela demandava postura crítica e objetiva diante da realidade; pretendia-se como operador de transformações dela; tomava a literatura como análise e estudo do homem e da sociedade, numa tentativa de “melhorá-la”.  
Imbuído dessa estética, a de sua época, Cesário Verde vai exercitar-se na lírica, mas não nos moldes clássico-românticos: o eu-lírico de sua poética não será um apaixonado impregnado de sentimentalismo e destituído de capacidade crítica; antes, será a consciência crítica que reflete – tanto no sentido de pensar sobre quanto no de sua obra falar sobre – a sociedade em torno de si, o eu-lírico. O sujeito não se volta para si, mas para o seu entorno. O mundo expresso não é mais o interno, idealizado, mas o externo, real. Enfim, o eu-lírico não é mais o ponto centrípeto do poema, mas seu ponto de partida dum olhar crítico que incide sobre  o mundo, o real, o Mundo Real.
Assim, se o eu-lírico  era tomado do sentimento que poetizava ou impregnado da amada retratada nas estéticas clássica e romântica, se está próximo do que fala, a postura do eu-lírico realista, e mais especificamente o de Cesário, vai tomar outra postura: a do distanciamento. Esse posicionamento vai lhe permitir não somente a busca da melhor perspectiva, o melhor ponto de vista sobre o retratado, como também a isenção necessária para quem pretende tomar postura crítica e a  credibilidade necessária para quem quer enunciar tal discurso.
         Cientes do escrito acima, podemos lançar olhos sobre o poema Manias. Creio poder encontrar nele os procedimentos estéticos descritos acima, exercitados de maneira brilhante.
         Trata-se de um soneto, de versos decassílabos heróicos ( sem pés quebrados) dispostos em dois quartetos em rimas interpoladas abba e dois tercetos em rima alternada, em estrutura, respectivamente, cdc edcd. Formalmente, um soneto clássico. Quanto às rimas, nada de mais.
         Quanto ao conteúdo, vejamos o primeiro quarteto, divido em duas partes de dois versos cada. O primeiro, formado pelos dois primeiros versos, não a toa principia por “O mundo”, objeto de análise do poema; o segundo, por “A vida”, retomando metonimicamente o mundo em que se desenrola e incidindo, ao mesmo tempo, sobre a vida concreta e individual de cada um. Estes são tratados e analisados por metáforas teatrais: “O mundo” é a cenografia, o palco em que se desenrola o espetáculo da “vida”. Esse espetáculo, porém, é tragicômico, pois a cena é “ensanguentada” – palco dos derramamentos de sangue das tragédias da vida; “coberta de remendos” – que fala da tentativas de “remendar” tanto esse mundo intrinsecamente trágico quanto  os danos causados pelas tragédias, o que em si é “picaresco” e torna o mundo, ensangüentado e remendado, uma visão picaresca; esse mundo é palco ou de “chula farsa assobiada” ou de “selvagem tragédia picaresca”.
         Temos então uma opinião critica e incisiva sobre o mundo e a vida, apontando e focalizando um ponto determinado delas: o caráter tragicômico destes.
         O resto do poema vai descrever uma “cena” tragicômica, um episódio da “peça da vida” de um rapaz, parte do “teatro do mundo”, para demonstrar o caráter tragicômico do todo.
         No segundo quarteto aparece o eu-lírico, logo no 5º verso do poema, mas que não “sente” ou “quer”: ele“sabe”, conhece, apela à ordem não de sensível, mas do cognoscível. Ele vai apresentar os personagens da cena: o “bom moço – hoje uma ossada” e sua amada, “certa dama pedantesca,/perversíssima, esquálida e chagada/ mas cheia de jactância quixotesca”. Atentando para o 9º verso que diz que a “déia” é “já rugosa”, temos bem descrito o casal protagonista : o bom moço cego de paixão  e a velha magrela, perebenta e perversa – que ao meu ver, também pode trazer algo de pervertida – cheia de uma arrogância sem fundamento. Enfim, um casal romântico, que, a essa altura, é metonímia do mundo romântico lisboeta criticado.
Nos tercetos seguintes desenrola-se a “cena” propriamente dita: aos domingos o moço leva a “ dama” à missa; ela lhe oferece o braço –esquálido, chagado, rugoso – de maneira preguiçosa, pedantesca , esnobe; ele, com as mãos tremendo de nervoso por estar com a amada, leva-lhe “ o livro com que amante ia ouvir missa” ( provavelmente uma Bíblia) feito o seu cãozinho. Um quadro de chorar – de rir.
 O fato de a cena se repetir – “ aos domingos” –  justifica o título, Manias, sendo as tais a causa de aflição no moço, vítima da perversidade da “amada” – teria ele morrido “de paixão”, coisa comum no Romantismo? Teria ele sido esnobado até a morte? – e causa de gozo dela – o que autoriza uma leitura da “dama” como uma “pervertida”.
Temos, então, o exercício lírico-realista bem sucedido: a crítica da perversão moral e da cosmovisão romântica, nocivas à sociedade, capazes de levar um “bom rapaz” a se tornar “uma ossada”, o velho a destruir as novas gerações.
Seria apenas cômico, fosse a imagem ridícula romântica apenas; seria trágico apenas fosse só o retrato da sociedade; mas, disposto assim, imagem romântica e crítica da realidade tão bem entretecidas pelo poeta, tão bem apresentadas pelo eu-lírico, eis a grande tragicomédia da vida apresentada.         
P.S.: adaptado de um trabalho de faculdade.

Beleza Iraniana.

1) Se alguém quiser saber o que eu penso sobre o que está acontecendo no Irã, leia este artigo do JP  Coutinho. Óbvio e genial. Mas não é sobre isso que eu quero escrever – ou melhor, postar.
2) Lula defendeu Ahmadinejad, de novo. Lamentável. Mas não é sobre isso que eu quero escrever – ou melhor, postar.
3) Motivo fútil para querer que o Irã se abra: se o país se abrir, se laicizar, se democratizar - e eu não acho que isso aconteça logo, infelizmente – háverá uma desova de modelos e atrizes daquele país. Argumentos abaixo.

Clique nas fotos para vê-las em tamanho grande.
P.S.: imagine o que as burkas do Afeganistão não escondem, hein???
P.S. 2: logo após a publicação deste post, soube da morte de Neda. Fiquei com um pouco remorso por tratar o tema tão levianamente enquanto uma das belezas iranianas morria tão indefesa e idiotamente. Este post é dedicado à memória de Neda.
IRAN-POLITICS-UNREST-NEDA

É tão óbvio...

O que há por trás do marxismo, ideologia coletivista base de praticamente todo o coletivismo dos séculos XX e XXI? Ora, o camarada, ou melhor, o indivíduo Marx, Karl Marx.
Sim, ele pregou uma tal de História com H maiúsculo, cujo movimento arrasta os indivíduos, impotentes contra a evolução histórica; porém, provou o oposto: ele, o indivíduo,mudou a história mundial com seus escritos – e não venha me dizer que ele fez isso com Engels e outros que ele foi tão “maior” que eles que hoje o marxismo não se chama, por exemplo, engelismo . Tá, foi para pior, você dirá; mas, quem negará que não haveria URSS, Muro de Berlim e Guerra Fria, Fidel e Che, PT e Lula, FARC´s, entre outros tantos fatos e faces do nosso passado e presente – e futuro – não fosse o indivíduo Karl Marx.
P.S.: marxismo é só um caso “transparente”  de indivíduo por trás da idéia; não quer dizer que quando não se batiza a ideologia com o nome do pai – coletivismo, comunismo, socialismo – isso não seja verdade, afinal, idéias saem de cabeças de pessoas; o que temos é apenas um produto opaco do mesmo processo.